Primeiro a notícia: uma mulher é condenada em tribunal a pagamento de indemnização e a 75 (?) dias de prisão (substituidos pelo pagamento de 15 euros ao dia) por ter posto “em causa o prestígio, crédito e confiança” do restaurante. Segundo a notícia, a senhora terá mostrado a sua insatisfação com o serviço de uma maneira particularmente visível e audível, comportamento que o tribunal terá considerado incompatível com o “prestígio” do estabelecimento. Causa aqui estranheza que este "prestígio" tenha propriedades de tal maneira objectivas e tangíveis que possa ser tão minuciosamente quantificado. Repare-se: 300 euros de multa + 15 euros x 75 dias de prisão = 1425 euros. Afinal, a palavra "prestígio" não é um substantivo abstracto (enfim, quem tiver algum interesse nas ramificações mais ou menos políticas do caso, leia a notícia e os comentários no jornal Público).
A campanha: provavelmente como reacção a esta passagem de substantivo abstracto a substantivo demasiado concreto, a campanha, baptizada de Operação Prestígio (nome a fazer lembrar o programa de televisão em que Markl é jurado), tem como alvo o uso abusivo da palavra, que serve, segundo o quase-manifesto do humorista, "tanto para vender bombons ou papel higiénico de marcas respeitáveis, como para definir a carreira de pessoas ilustres". Indiscriminadamente, claro – o que contribui para o descrédito e esvaziamento da palavra. Markl propõe uma mudança de significado: onde se lê “notoriedade” ou “valor” leia-se “cu”. Sim, “cu”. O dicionário, tomando o cuidado de nos avisar que a palavra é um vulgarismo, diz-nos o que se entende por “cu”: extremidade do intestino grosso, ânus, nádegas, rabo, fundo da agulha, assento. Enfim, assimilada a mudança de significado, as possibilidades são infinitas. Eis algumas das sugeridas pelos leitores do blog:
- vossa excelência tem um prestígio imenso; com o passar do tempo, o seu prestígio foi descaindo; gostaria um dia de possuir o seu prestígio (Susana, leitora que foi particularmente generosa em sugestões)
- eu por acaso tenho uma amiga com um bom prestígio... mas bem bom! (Manuel Reis)
- Os árbitros insistem em denegrir o prestígio do meu benfica (Pedro Pereira)
- Tens mesmo cara de prestígio. (POVD)
- Viva o prestigio africano!!! E o brasileiro. E o sueco. (Flávio)
Para lá do propósito humorístico da proeza, é entusiasmante ver um falante/escrevinhador da sacrossanta língua do defunto Camões, sem outra autoridade que a de um mero utilizador (se bem que profissional: Markl é argumentista), ousar tentar mudar o estado das coisas. É que Markl não se pode valer das formas de legitimação tradicionais. Markl não é escritor literário e não tem o exército de críticos-jornalistas e críticos-académicos, professores universitários, fazedores de currículos e autores de manuais escolares a tecer-lhe loas à capacidade de reinvenção da língua. Markl não é linguísta e não tem uma editora a apadrinhar-lhe a capacidade de iniciativa com uma publicaçãozinha (dicionário, gramática ou afim) nem o poder político a transformar-lhe a proposta em decreto-lei ou despacho. Não tendo nada disto, Markl valeu-se da rádio (a coisa parece ter começado na rádio) e da internet. E alguém se lembrou da Wikipedia para dar um ar mais oficial à campanha.
[A rádio e sobretudo a televisão podem ser meios poderosos de introdução (ou reintrodução, no caso das novelas brasileiras) de palavras e expressões. O problema é chegarem à oficialidade de um dicionário, por exemplo.]
E o que pensou a comunidade wikipédica do assunto? Foi motivo de animada polémica até ao momento que a entrada "operação prestígio" foi definitivamente apagada. A dita campanha, o facto em si (e a subsequente entrada), foi acusada de não ter valor enciclopédico. A decisão final (por votação) foi a de eliminar o artigo mas as vozes que se fazem
Na página de discussão da Wikipedia alguém avança a sugestão de que será uma guerra travada pelos wikipedistas brasileiros contra os portugueses (neoprodigy). A teoria é rebuscada mas é interessante verificar como a ideia é recorrente quando o assunto é a língua portuguesa. A discussão é encerrada por uma série de serenos e técnicos argumentos contra a manutenção da entrada (maf). Apagar a entrada não corresponde a nenhum juízo de valor sobre o facto ou a qualidade do texto do artigo. Muito simplesmente, o facto, a "operação prestígio", não terá ainda a capacidade de influência no estado de coisas necessária para poder constar numa enciclopédia. E como se avalia esta importância? O artigo não pode ser uma investigação original mas deve basear-se em fontes secundárias. Uma enciclopédia (mesmo que em formato wiki) não determina a importância de um dado assunto mas regista a importância que os outros lhe dão ou lhe reconhecem. É, por isso, que se pode provavelmente justificar a existência dos artigos já referidos. Por ordem de legitimidade: 1, 2, 3.
Como pode então um mero mortal fazer valer uma mudança na língua? Ou mesmo evitá-la, sem ser através do chicote da lei? Como evitar, neste caso, uma mudança (para pior), a transformação de "prestígio" num valor quantificável a que temos de obedecer por ordem judicial? De qualquer modo, é interessante verificar a transfiguração da palavra da origem até aos dias de hoje: afinal, "prestígio" era a ilusão dos sentidos ou encantamento atribuídos à magia, em sentido figurado ou não.
[Provavelmente, a "operação prestígio" já tinha cabimento aqui.]