O paraportuguêsler responde #2

Quem aqui vem ter através de uma busca no Google (sim, o Google domina) é porque quer respostas. E, como não queremos fregueses insatisfeitos (mesmo aqueles que procuram beterraba em loja de móveis), aqui segue uma tentativa de atendimento personalizado:

• bluteau radios carros
Não me parece que o excelente Rafael Raphael Bluteau, autor do Vocabulario Portuguez e Latino, soubesse o que quer que fosse de rádio (só o das circunferências e o da anatomia) e carros (pelo menos dos modernos, daqueles que funcionam a motor de combustão interna). Muito menos conhecia o protocolo de transmissão de dados sem fios Bluetooth. E nada sabia de auto-rádios com o dito sistema. É só procurar numa loja da especialidade.

• tens alguma informacao sobre as disciplinas utilizadas nas novas oportunidades
Assim mesmo, jovem. A tratar as novas tecnologias por tu, sem medo. É desta fibra de gente que o Novas Oportunidades precisa. É com gente como tu que o nosso Primeiro conta para concretizar a visão que tem para Portugal, um país moderno, tecnológico, moderno e... moderno. Informações aqui.

• digitalização margarida rebelo pinto
Se digitalizar é transformar dados analógicos em dados digitais (numéricos), suponho que não é possível fazer isso à senhora*. Se o que pretende é violar direitos de autor, acho que a Oficina do Livro não ia gostar muito. Há aqui alguns textos.

• pretérito prefeito
Alguem porcurou e incontrou. Vergunhozo, eu sei. Já tá corrijido. Mas, se calhar, o que queria mesmo era encontrar informações sobre prefeitos pretéritos.

* A ideia é porém intrigante. Digamos que guardávamos MRP num CD e a instalávamos num computador; continuaria ela a escrever sobre a irrefragável fragmentação do quotidiano contemporâneo? Que diferenças haveria entre a versão Windows e a versão Macintosh? Seria apenas uma questão de interface do utilizador? E no caso de António Lobo Antunes: continuaria ele a dar entrevistas sobre o ennui existencial e o fim da arte do romance?

This is the way I run my shop and it has worked fine so far

Fica em Cecil Court, Charing Cross Road, a rua tradicional das livrarias e dos alfarrabistas, muito perto de Trafalgar Square. Vende livros antigos (genuínos) e outros papéis. Vasculho estampas e recortes de jornais na banca em frente da montra. A (venho a sabê-lo mais tarde) dona do estabelecimento dispara em direcção à rua e pede-me (correcção: ordena-me) que use as duas mãos, alguns daqueles papéis têm mesmo duzentos anos. "Sure".

Descubro um cartoon de 1800 e qualquer coisa. Mal entro, as instruções são claras -- não mexer em nada. Pergunta-me se estou constipado. Se estivesse, punha-me na rua imediatamente (ao que parece, faz a mesmíssima coisa aos amigos). Caso ficasse doente, não havia ninguém para abrir as portas da loja. Não é como no HMV* -- "they have hundreds of them there". É preciso ter cuidado, a poluição (isto é, os germes alheios) está por todo o lado.

Pergunto por anúncios antigos. A resposta imediata é "não" (apesar do "mental archive of everything in this shop"). Reflecte e diz que tem de ir à cave. Manda-me sentar. Como eu não me sento, faz questão de sublinhar que, se eu a quero ajudar, devo sentar-me. Obedeço sem pestanejar. Volta e mostra-me recortes de vários jornais. Vou seleccionando alguns. Interrompe-me várias vezes para estipular as regras aos potenciais clientes que vão entrando na loja. Afugenta três clientes em quatro.

A número quatro e eu temos direito a uma resenha da história da loja (est. 1970), a breves impressões sobre o pai (faleceu há vinte anos), informação sobre o número de filmes ali rodados (cinco, incluindo celebridades como Renee Zellweger e Ewan McGregor) e sobre os clientes regulares com quem tira fotografias e troca correspondência (à antiga, não tem e-mail nem página na net).

Entretanto arenga contra um (não) cliente que não terá ficado satisfeito com a regra do "não mexer em nada". Diz que tem passado em frente da loja várias vezes só para a aborrecer: "this kind of people are just sad". Por entre ameaças de fechar a loja, aponta, por duas vezes, para a rua e pede a confirmação de que passou um homem e que acenou. Não fico certo de que é a mesma pessoa das duas vezes.

Diz que é assim que tem gerido o negócio e que tem funcionado. Que quem não gosta das regras pode ir embora. Acredito. Se encerrasse portas, aquilo era transformado num Starbucks. Também acredito. Pago e saio com três anúncios a artigos médicos: ao Sanatogen, ao Amoniaphone e ao Electropathic Belt.

* Cadeia de lojas de CDs e DVDs.

História de livros (alheia)

No Avatares de um Desejo:

Ao meu lado no Alfa sentou-se uma senhora bonacheirona pelos seus cinquentas. Visivelmente cansada por um dia exigente, acabaria por adormecer acidentalmente no meu ombro. Algo atrapalhado, entre o constrangido e o enternecido, deixei-me ficar numa imobilidade só perturbada pelo gesto cuidado com que ia virando as páginas do livro. E assim ficámos (...)


[mais]

Ler à letra

Um homem lê. Com os cotovelos ligeiramente levantados, empunha, quase colado ao rosto, o livro. Com a mão esquerda, segura a capa e vira, com esforço, as páginas. Com a direita (apenas com o dedo mínimo), segura a contracapa. Polegar, indicador, médio e anelar seguram uma pequena lupa. Ao ler as páginas pares quase fecha o livro; ao ler as ímpares abre-o um pouco mais. Não são os olhos que percorrem as páginas. Varre com a cabeça, da esquerda à direita e da direita à esquerda, cada uma das linhas. São as mãos que sobem e descem o livro à medida que a leitura avança.

O homem lê um manual de geometria fractal.