Leitura em voz alta

Um homem anda pela rua com um livro aberto numa mão, um saco de supermercado na outra e um lápis na boca. À medida que avança pelo passeio, lê o livro em voz alta mas não se percebem as palavras porque tem o lápis na boca. De vinte em vinte metros pára para tomar notas nas margens.

A vírgula

Já todos experimentámos a sensação irritante de nos corrigirem a gramática quando não há rigorosamente nada a corrigir. Claro, tudo que nos resta é fazer um sorriso amarelo tipo já-percebi-a-ideia mas que bem pode passar por ligeira demonstração de embaraço. A situação mas típica acontece ao fazer-se um qualquer pedido. Começar-se o fatídico pedido pelo pretérito imperfeito do indicativo pode desencadear (e muitas vezes desencadeia) bizarras associações linguístico-humorísticas no nosso interlocutor. Mal um pobre desgraçado se atreve a usar a língua portuguesa e a dizer "queria", do outro lado se ouve prontamente em voz de falsete: "queria ou quer?"

Uma pessoa respira fundo mas corrige, claro. E por duas ordens de razões: (1) quer despachar o assunto com brevidade e (2) não quer passar pela maçada de explicar o conceito de modalidade em meia dúzia de palavras, o que, além disso, podia ser entendido como uma demonstração arrogante de paternalismo e falta de poder de encaixe. Concedo que o assunto já terá sido tratado em maior profundidade e melhor estilo numa qualquer coluna de jornal. Com toda a certeza, o tema já terá sido mastigado pelo Miguel Esteves Cardoso (aliás, MEC) numa daquela crónicas em que prazenteiramente malha nas subtilezas da portugalidade (enfim, não faço a mais pequena ideia mas admito que sim).

O que me leva a remoer o assunto são aquelas pessoas que, tendo a obrigação profissional ou quase de saber um nada mais sobre os formalismos da língua, levam o horrível hábito da hipercorrecção a territórios nunca dantes explorados. E compliquem o que é simples. Aqui há uns dias fui corrigido. Eis o que estava em causa: uma vírgula. Infeliz e desnecessariamente, aquilo afectou-me e pôs em causa toda uma visão do mundo laboriosamente construída ao longo de mais de duas décadas. Dúvidas quase existenciais ocuparam-me o pensamento durante horas a fio: as orações subordinadas em posição tópica seriam ou não seguidas de vírgula? Mas seria a oração realmente subordinada? O conector inicial podia, de alguma maneira, iluminar o problema?

As dúvidas avolumavam-se e, quase incapacitado, à beira de um colapso físico na acepção mais literal da expressão, corri em busca de uma livraria como se disso dependesse a minha sobrevivência (não tinha, infelizmente, uma gramática à mão). A leitura da secção adequada de um grosso tomo serenou-me o espírito. Os dias cada vez mais próximos e inevitáveis de senilidade profunda ainda não tinham chegado. Ainda sabia virgular com propriedade (do dicionário, virgular: v. tr., pôr vírgulas em, pontuar). À ansiedade seguiu-se um ligeiro ressentimento, uma mansa sede de vingança. Contra todas as brigadas de intervenção gramatical e os tristes representantes que vamos encontrando pela vida fora. E, de gramática em punho, mil vezes amaldiçoei os hipocondríacos da língua, que contagiam com os seus complexos e as suas obsessões os inocentes que tentam levar uma pacata e sensata existência linguística.

Book Flirting

Na carruagem de metro, uma jovem lê O Tao na Mecânica Automóvel. Numa estação, um rapaz entra e fica imediatamente perturbado. Senta-se e tenta, sem sucesso, estabelecer contacto visual. Não se dá por vencido e saca da mochila um grosso volume intitulado Exercícios Prácticos de Transcendentalismo.