Era uma vez uma notícia

1.Estamos rodeados de notícias por todos os lados. Chegam-nos através de uma diversidade de meios: jornais, revistas, televisão, rádio, internet ou telemóvel. No entanto, a abundância de notícias não corresponde necessariamente a um domínio informado deste tipo de texto: os mecanismos e regras a que obedece a notícia não são facilmente percebidos pelos alunos, que estão muito mais familiarizados com os mecanismos e regras da narrativa. Muitas vezes, os alunos tomam informações como as que se seguem (uma espécie de bloco de notas do jornalista)

Carlos, o Chacal, enfrenta prisão perpétua;
Carlos irá ser julgado pelo atentado de 1982;
Carlos encontra-se a ser interrogado em Paris;
Carlos é o terrorista mais procurado do mundo;
Em 1982, Carlos armadilha um carro, matando uma pessoa e ferindo 64;
Carlos é preso no Sudão e é extraditado para França.

não como os factos que necessariamente devem integrar um tipo específico de texto, mas como o tema a desenvolver numa história ou numa redacção. No entanto, a aplicação da estrutura típica da narrativa -- introdução, desenvolvimento e desenlace -- a matéria noticiosa pode resultar bastante estranha. Por isso, é frequente aparecerem textos que começam por "era uma vez..." ou "um dia..." -- "um dia, Carlos, o chacal, que é o terrorista mais procurado do mundo, armadilha um carro e..."

2.Este exercício -- ordenar um conjunto de informações e construir uma notícia -- permite aos alunos compreender as regras da notícia e revela as fragilidades de uma mera memorização das características e das regras da notícia ou mesmo da leitura e interpretação de notícias. Permite ainda aos alunos compreender que a informação que é notícia não é necessariamente a informação mais sensacional (= Em 1982, Carlos armadilha um carro, matando uma pessoa e ferindo 64), mas a informação mais recente e inédita, neste caso, todos os elementos sobre o julgamento. Este tipo de exercício chega mesmo a revelar (e corrigir) bizarrias cronológicas como o relato de acontecimentos que se situam para lá do momento presente e, no pior dos casos, desfechos do tipo "e viveram felizes para sempre". No menos mau (ou melhor) dos casos, os alunos perguntam-se e perguntam ao professor se podem inventar acontecimentos posteriores à informação mais actual.

3.A comparação explícita com o conto tradicional pode reforçar a consciência de que não existem narradores omniscientes no mundo real, isto é, narradores que conhecem o desfecho absoluto de uma história. A história do Capuchinho Vermelho pode acabar com um "... e nunca mais ninguém fez mal algum a Capuchinho" (na versão dos irmãos Grimm). Já a história do Capuchinho Vermelho transformada em notícia implica a reordenação das peripécias de tal forma que o final da história desaparece -- é impossível saber se Capuchinho será ou não importunada pelo Lobo -- e a intervenção do lenhador ocupa o título e o lead da notícia. Há aqui uma inversão da ordem dos elementos em que o desenlace da narrativa tradicional passa a introdução da notícia.

4.Se a ordenação das informações corresponde à aplicação da estrutura clássica da notícia (o quê, quem, quando, onde, como e porquê ), a exclusão de um dado como "... e nunca mais ninguém fez mal algum a Capuchinho" depende da capacidade de distinguir entre factos e opiniões ou projecções para o futuro. As bizarrias cronológicas atrás referidas surgem precisamente da incapacidade de alguns alunos de distinguir entre aquilo que é factual e verificável -- situado por isso num passado mais ou menos recente -- e aquilo que é virtual e imponderável. O pretérito perfeito de expressões como "... e nunca mais ninguém fez mal algum a Capuchinho" ou "... e viveram felizes para sempre" (a expressão-chave é "para sempre") corresponde a um nível de omnisciência impossível fora da circunscrição da narrativa tradicional, logo, traduzível, num contexto real, num futuro não verificável, do domínio da opinião e da argumentação.

5.A distinção entre facto e opinião é assim o fulcro do conteúdo "notícia", quer enquanto matéria do domínio da "compreensão", quer enquanto matéria do domínio da "produção escrita". Aliás, as duas dimensões estão intimamente ligadas, embora de maneira não linear: um aluno, ao entregar uma notícia para avaliação, justificou a inclusão de opiniões (apesar das instruções em contrário) com um "se nos jornais desportivos podem, eu também posso". O problema do jornalismo desportivo ou, mais especificamente, do jornalismo desportivo praticado aquando de competições internacionais pode ser um bom ponto de partida para a discussão dos limites e critérios para a inclusão de opiniões nas notícias: será lícito as imprensas nacionais tomarem partido a propósito de um campeonato mundial de futebol? Admitindo que a situação é, pelo menos, tolerável, será de confiar que a flexibilização do critério não se estenda a outras áreas? Por sua vez, os títulos de notícias podem ser um bom ponto de partida para o estudo da distinção entre facto e opinião:

Foi bom, mas Portugal despediu-se mal: a selecção portuguesa perdeu por 3-1 com a Alemanha e acaba o Campeonato do Mundo de futebol fora do pódio (Público, 9 de Julho de 2006);
Braga com menos 792 desempregados em Maio (Público, 9 de Julho de 2006);
Eleições presidenciais no México: o pior dos cenários (Expresso, 7 de Julho de 2006);
Marcel bisou mas estrela foi Rui Costa (a propósito do primeiro jogo da pré-epoca do Benfica 2006/07, Diário de Notícias, 9 de Julho de 2006);
Seis bombeiros morreram em incêndio na Guarda (Correio da Manhã, 9 de Julho de 2006).

Os alunos devem estar munidos de três perguntas essenciais. A afirmação é verdadeira? A afirmação pode ser provada? A afirmação contém advérbios e/ou adjectivos (qualificativos)? Se respondermos "sim" às duas primeiras perguntas, estamos, com uma margem larga de segurança, na presença de factos. Se respondermos sim à terceira pergunta, estamos na presença de opiniões.

6.Este pequeno procedimento não resolve em definitivo o problema da distinção entre facto e opinião: note-se que os terceiro e quarto títulos podem ser admissíveis caso o texto das respectivas notícias esclareça que os termos "pior" e "estrela" não decorrem da opinião do jornalista mas da auscultação de terceiros. De qualquer modo, a utilização de aspas tornaria mais clara a utilização de palavras com um valor claramente judicativo. Pode, no entanto, este conjunto de três perguntas dar indicações bastantes precisas para sinalizar opiniões e, deste modo, permitir que estas sejam incluídas na notícia de modo correcto - assinaladas com aspas e/ou atribuídas a um locutor específico. Diria então que o final da história do Capuchinho pode ser incluído numa notícia. À boa moda do jornalismo nativo, escrever-se-ia: "Fonte não identificada considera não haver motivos de preocupação e que, em vista dos recentes acontecimentos, Capuchinho Vermelho não voltará a ser alvo de assédio".