Há aqui uns tempos notei que era cada vez mais raro ver pessoas a ler no metro. Com a chegada de meados de Abril, vêem-se aos cinco e seis leitores por carruagem. E livros em segunda-mão. Será por causa da crise ou apesar dela?
PRS-505

A tecnologia E-Ink permite uma experiência de leitura semelhante à do papel (a preto e branco de oito tonalidades). O ecrã não é retro-iluminado como os de tipo LCD e, ao contrário destes, torna-se mais legível em locais bem iluminados. Com luminosidade fraca, o fundo fica com uma tonalidade acinzentada ligeiramente desagradável mas, mesmo assim, o contraste em relação aos caracteres é satisfatório. Com muita luz, o fundo torna-se mais esbranquiçado e é com uma ponta de espanto que se vêem as páginas suceder no ecrã. O papel electrónico funciona com pequenas esferas brancas e pretas com diferentes cargas eléctricas que se combinam no ecrã para formar a imagem. Só quando se dá a actualização da imagem é que é gasta energia, sendo assim possível uma utilização prolongada da carga da bateria.
O PRS-505 tem uma memória de 256 MB que permite guardar mais de cem livros electrónicos. Lê os formatos EPUB, BBeB, TXT, RTF e PDF, incluindo o formato de PDF protegido da Adobe. Dadas as dimensões relativamente reduzidas do ecrã (15,24 cm na diagonal), os ficheiros PDF formatados para impressão em página A4 não são facilmente legíveis. Neste caso, é necessário recorrer à funcionalidade de zoom, que aumenta aumenta o tamanho dos caracteres do texto mas não a página como um todo, destruindo assim a formatação original. No entanto o PRS-505 só nos dá a indicação de mudança de página quando chegamos ao fim da página do documento original. O zoom não funciona satisfatoriamente com todos os documentos PDF e é por isso que a publicação de um livro electrónico deverá ser mais do que transformar um qualquer documento num PDF ou em qualquer outro formato electrónico. O cuidado com o design e a paginação deve ser o mesmo que se dedica (ou devia dedicar) ao livro físico.
A Sony oferece um programa para organizar a colecção de livros electrónicos, para já apenas para o sistema operativo Windows. De qualquer modo, quando ligado a qualquer computador, o PRS-505 funciona como um dispositivo de armazenamento via USB. Na interface de utilizador do PRS-505, encontramos os livros organizados por título, autor e por data de utilização. Para cada título, o leitor da Sony guarda informação sobre a última página lida, sobre o historial de leitura e permite a marcação de páginas.
Vejo-me a ler numa máquina destas. Tanto ou mais do que um dispositivo para ler livros/ficção, este tipo de aparelhos (que não tanto o PRS-505) pode ser útil para a leitura de documentos próprios ou produzidos no seio de uma qualquer instituição (pense-se apenas na bem-vinda poupança de papel). Junte-se a esta vantagem, a possibilidade de tomar notas e de fazer pequenas edições/correcções no texto e o leitor electrónico pode tornar-se num instrumento indispensável em muitas áreas.
O que diz Molero
Quando comecei a ler O que diz Molero, o que mais me intrigou (a ponto de me irritar) foram as constantes interrupções da fala das personagens. "Disse Austin", "disse Mister DeLuxe", "disse Austin", "perguntou Mister DeLuxe". Só na primeira página da edição que tenho à minha frente (a de 1984), há oito destas interrupções. Nas primeiras cinco, trinta e oito. E, nas primeiras dez páginas, cinquenta e quatro destas interrupções. Se me é permitida uma pequena projecção a partir da amostra, o romance deve ter mais de 1500 destas curtas incisões no texto. Que necessidade havia -- perguntava eu -- de fazer da história uma acta em que cada argumento ou facto tinha de ser obrigatoriamente atribuído a alguém, como se cada argumento ou facto pudesse ser objecto de disputa?
Mas o que estava a ser discutido naquelas primeiras páginas era, de facto, não tanto uma acta mas um relatório. Um relatório sobre a vida de um rapaz. A impressão que tive foi a de que a bizarra conversa entre Austin e Mister DeLuxe estava a decorrer num laboratório devidamente assepsiado, com as personagens a folhear com luvas brancas o relatório de Molero. Luzes cruas e brancas, de lâmpada fluorescente, a iluminá-los por cima. Ou seria num gabinete à detective privado ou repartição pública, mais obscuro, com Austin e Mister DeLuxe a comentar o relatório com os modos soturnos e furtivos de agentes de um estado concentracionário? E por que diabo tinham estas personagens, que não necessariamente pessoas, nome de automóvel dos anos 60? E quem era Molero, esse minucioso relator com nome espanhol que significa fabricante ou vendedor de mós?
Continuei a ler e logo aprendi a aceitar Austin, Mister DeLuxe e Molero sem grandes reservas. Se aceitava sem pestanejar naqueles narradores tipo deus, que sabem tudo e mais alguma coisa, qual era dificuldade em aceitar que uma história me fosse contada por três criaturas com nomes exóticos e que, sabendo muita coisa, nem sempre sabiam tudo. Seria o equivalente a ser católico convicto e ter dificuldade em acreditar no Flying Spaghetti Monster. Aliás, o relatório de Molero chega a ter passagens obscuras e coisas que não especifica. Molero chega a precisar, depois do aturado trabalho de investigação e ao jeito de um ser humano, de "uma pequena cura de repouso e de desintoxicação". E até merece um abraço caloroso de Mister DeLuxe. À distância.
Desintoxicação? Da "beberagem que sabia a ferrugem" que levou aos lábios? Do emaranhado dos assuntos dos homens? Ou do contacto com o vulto "nem de homem nem de mulher" que irradiava sabedoria e que lhe indicou a morada do rapaz? De qualquer modo, as extravagâncias d'O que diz Molero, seja o vulto de olhar azteca, sejam os assuntos complicados dos homens (sobretudo estes últimos), fazem sentido. Tanto mais quanto o contraponto é feito pelas assépticas e secas incisões de um quarto narrador (Dinis Machado ele mesmo?): "Disse Austin", "disse Mister DeLuxe", "disse Austin", "perguntou Mister DeLuxe".
É como se o exotismo d'O que diz Molero vibrasse com mais força e autoridade enquadrado por uma moldura minimalista. Só nas primeiras cinco páginas da edição que tenho à minha frente, misturam-se no mesmo quadro um elástico metafórico, burriés do nariz (que o rapaz comia), uma casca de banana, um escarrador, uma tela de Miró, bowling com garrafas, uma grande bola de pratas de chocolate, um aparelho para endireitar os dentes, um Rato Mickey tatuado, um artigo de jornal, Paris e Matisse. E, se me é permitida uma amostragem das 182 páginas do romance, uma foda no chão (que a cama rangia), campeonatos de bilhar, um bando de camones, um suicídio, Pessoa e Pessanha, Groucho Marx, charutos marca Winston, chantilly nas nádegas de uma adolescente, o deserto do Sara e uma coisa chamada a estrela do Descoiso.
Se é verdade que lemos como forma de conhecimento, como forma de dar sentido, O que diz Molero oferece duas categorias de estar no mundo. Queremos nós ser o rapaz, mergulhado de cabeça no tumulto desordenado da vida, ou Molero, que a vê e regista de fora, diligente, sempre à cata de um sentido último? Não sei se será a resposta mas o rapaz ficou lá em cima junto ao sol; Molero, esse, qual inválido, fica-se por um anódino descanso e uma recompensa administrativa.